Desnecessidades do mundo
José Antônio Zechin
 

Certo dia entrei numa grande loja de artigos variados para comprar um presente de casamento.
Fiquei desanimado com a quantidade de objetos que tinha para escolher. Só de copos havia mais de cem opções, de vidro comum a cristal importado, para água, cerveja, vodca, champanhe ou vinho, de todas as cores, formas e tamanhos. Fiquei confuso. Pensei com os meus igualmente cansados botões: cara, se tudo isso não existisse não faria falta nenhuma para mim (ou para o mundo). Eu tomaria água numa casca de coco ou fazendo uma concha com a palma das mãos.
Claro, estou exagerando, mas que o mundo é cheio de desnecessidades acho que você concorda... Dizem que a “necessidade é a mãe de todas as invenções”. Ou seja, na história da humanidade, sempre que o homem teve uma necessidade – fosse ela qual fosse – ele acabou inventando alguma geringonça para supri-la. Podemos inverter este provérbio e dizer que “a invenção é a mãe de todas as necessidades”.
Faz muito sentido nos dias de hoje. Ninguém precisava do celular ou do iPod antes de serem inventados. O homem inventou e virou uma febre. Parece que ninguém mais consegue viver sem um. Mesmo que nunca vá ouvir as três mil músicas que cabem no iPod e use o celular para tudo, menos para falar. Sem considerar que qualquer objeto que você compre numa semana, na outra surge uma novidade, mais bonita, mais colorida, num tamanho menor, com mais funções e etecétera. Numa mísera semana você se transforma de um moderno e atualizado ser humano em um dinossauro pré-histórico, pensando para qual museu irá enviar sua última novidade.
Faz parte da natureza humana se sentir incompleto. Por mais que tenhamos, sempre parece que está faltando alguma coisa. Sei que a evolução tecnológica é inerente à raça humana e se ela não existisse ainda estaríamos andando no lombo de animais e levando seis meses para receber uma carta escrita em papiro com pena de ganso. Precisaríamos tomar uma garrafa de conhaque para ficar anestesiado e o médico serrar a perna gangrenada, estaríamos iluminando as noites escuras com tochas e parindo dentro de cavernas. Não haveria cerveja gelada nem sorvete de chocolate. E, Deus me livre, as mulheres seriam bem mais peludas e bem menos cheirosas!
Sim, demos vivas às invenções humanas!... Mas, sem deixar de refletir
sobre aquilo que é realmente necessário para a vida de cada um. Sem contar que, muitas vezes, até nós mesmos somos desnecessários!

 
José Antônio Zechin é escritor e membro da
Academia Metropolitana de Letras, Ciências e Artes
 
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